Globalizando o que importa

Por: Felipe Mello
01 Novembro 2007 - 00h00

Mais um ano correu. Pelo menos é o que diz o calendário utilizado pela maior parte da civilização ocidental, incluindo esta terra verde e amarela onde caminhamos. É quase inevitável a tentação de olhar para o ano que se despede e fazer o balanço. Balançamos de que maneira ao longo dos dias? Acompanhando a correnteza – quase sempre de modo anestesiado – ou ousando braçadas conscientes em direções alternativas, ainda que sob protestos de quem não sabe nadar?

Embora seja uma tarefa individual, torço ferozmente para que a sua “Planilha Existencial Versão 2007” apresente diversos momentos de nutrição coletiva, do corpo e da alma.

Balanço social

Em novembro, tive a oportunidade de desenvolver atividades que balançaram de maneira essencial o meu ano – é bom que se lembre: inesquecíveis doze meses. Até outubro, aconteceram situações de conquistas, frustrações e oportunidades, mas a Expedição Social ao Peru – responsável pelos acontecimentos “novembrinos” – nutriu a contabilidade do meu balanço social. Senta que lá vem história, tendo como enredo a decisão de globalizar os três únicos elementos que verdadeiramente importam como combustível para este planeta: amor, amor e amor!

Se a Petrobras descobriu uma baita reserva de petróleo, pude redescobrir e confirmar durante a viagem a crença na possibilidade de ressurgimento “a la fênix” da dignidade humana a partir do caos.

“Não reconheço nacionalidades nem fronteiras; meu compromisso é com a vida”
Anthony Quinn (ator mexicano)

Tirando os pés do chão

Entre os dias 1º e 5 de novembro, um grupo de sete voluntários do Canto Cidadão – ONG fundada e coordenada por mim e pelo Roberto Ravagnani – viajaram ao Peru a convite do governo de lá, em decorrência de uma expedição bem sucedida realizada em junho. Feliz de mim que estava entre os sete. Nesta segunda incursão os resultados foram amplificados em termos de qualidade e número de pessoas beneficiadas.

A missão? Levar às vítimas do terremoto de agosto, especialmente das cidades de Ica e Pisco (distantes 300 quilômetros de Lima, aproximadamente), preciosas doses de carinho, gentileza e respeito. Foram várias atividades de interação com os peruanos, por intermédio de visitas a hospitais e asilos, apresentações em comunidades carentes, palestras para adultos e idosos e contato freqüente com as autoridades da área de promoção social do país.

Embora os expedicionários não tenham levado em sua bagagem contribuições tangíveis e mensuráveis, as respostas espontâneas e sinceras dos visitados carimbou o passaporte da pertinência das ações. Ficou evidente na prática a afirmação de Frei Betto, ou seja, “que a fome de pão é saciável, enquanto que a fome de beleza é insaciável”.

Os Doutores Cidadãos – voluntários palhaços hospitalares ligados ao Canto Cidadão – levaram beleza na sua essência, pela solidariedade, pelo fazer o bem sem observar fronteiras de países, culturas ou idiomas. Certeza reforçada de que no caos a mensagem afirmativa é determinante para o resgate da dignidade.

Vida brotando nos escombros

Caminhando pelas cidades, enchia nossos olhos constatar os escombros e terrenos vazios que antes abrigavam casas, escolas, empresas, igrejas, hospitais e, obviamente, pessoas com suas vidas e sonhos. Desde bairros centrais das cidades até comunidades carentes nas periferias, foi possível perceber o que um forte tremor de menos de dois minutos consegue fazer. As construções que não tinham estrutura reforçada foram abaixo ou ficaram seriamente danificadas, a maioria condenada à demolição. Somente nas regiões visitadas, mais de mil pessoas perderam suas vidas, e outros milhares sofreram traumas físicos e emocionais sérios.

O desastre aconteceu em agosto, mais exatamente no dia 15, às 18h50. Era um começo de noite, o que tornou todo o processo pós-terremoto ainda mais difícil. O país não enfrentava uma situação igual há décadas, e muitas construções não estavam preparadas para resistir, assim como as pessoas não tinham em seu dia-a-dia a preparação para lidar com uma situação limite como aquela.

Cidades ressurgindo das cinzas e do pó, literalmente. Ainda há muito a se fazer, pois bairros inteiros foram abaixo. Estruturas de atendimento público, tais como escolas e hospitais, deixaram de existir de um momento para outro. Em uma igreja de Pisco, quase 200 pessoas perderam suas vidas durante a realização da missa. Os relatos dão conta de que as cidades acordaram no dia seguinte sem saber a extensão do desastre, tampouco quais e quantos amigos e familiares haviam sucumbido.

Aparentemente, a visita dos Doutores Cidadãos não fazia sentido algum naquele cenário, e eu mesmo me flagrei prestes a cair na armadilha da anestesia, racionalizando algo que só fica claro quando se pratica. Entretanto, a minha crença mais íntima foi confirmada, e ficou evidente que as pessoas estão ávidas por apoio material, sem dúvida, mas também anseiam muito por carinho, alegria e gentilezas.

Como diz o dr. Patch Adams, “quando o ser humano tem comida e amigos, ele pode superar qualquer adversidade”. Na ida, a bagagem estava cheia de potência afetiva; na volta, abarrotada de novos amigos.

“É melhor morrer de pé que viver de joelhos”
Dolores Ibarruri (revolucionária espanhola)

Terremotos brasileiros

Encarar um terremoto é uma situação limite. O povo peruano parece ter se unido muito a partir da comoção nacional. O Brasil também pode aprender sobre as vantagens da união frente aos desafios de interesse coletivo. Felizmente, não temos terremotos físicos, dos que fazem o chão tremer e derrubam casas. Contudo, temos diversos terremotos morais – íntimos e públicos –, que também deixam o povo brasileiro sem chão, estapeando a auto-estima e o orgulho nacional.

Este texto é uma redundante expressão de minha certeza: a grande maioria das pessoas utiliza o combustível errado na maior parte do tempo. É claro que errar é humano, como dizem à boca miúda, mas persistir no erro é burrice, sem qualquer intenção de ofender os eqüinos de tal espécie.

Os terremotos brasileiros têm algumas origens: no campo da coletividade, a covardia, estupidez e falta de caráter de uma parcela significativa dos políticos e funcionários públicos, alimentadas pela inércia dos cidadãos. Todas as vezes que praticamos a anestesia, dopados pela certeza quase definitiva de que “este país não tem jeito”, permitimos que rachaduras aumentem. Na esfera individual, criamos terremotos quando patrocinamos a mediocridade em nós mesmos. O que você aprendeu em 2007? Como a sua existência foi valorizada? Você provocou reformas íntimas ou assistiu a todas as novelas e danças dos artistas?

Raciocínio quase simplista. Quase.

Enquanto isso, um brasileiro morre assassinado a cada 12 minutos (média de 2006), apenas metade da nossa população sabe onde fica o país no mapa-múndi e, até o final de novembro, a União investiu apenas R$ 1 de cada R$ 3 previstos no orçamento de 2007. Haja potência de futuro para resistir a tanta insensatez presente.

“Nada grandioso no mundo foi realizado sem paixão”
George, W. F. Hegel (filósofo alemão)

Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima

Existe potência de vida em meio ao caos, e isto deve alimentar a nossa crença na possibilidade da cura do mundo. Cada contato com cidadãos peruanos vítimas do terremoto deixou claro que o ser humano é forte, e quando ajusta sua caminhada para a direção correta, os desafios são superados.

Certamente voltei transformado da Expedição Social ao Peru, marcado pela possibilidade de curar o mundo todos os dias, em cada uma das atitudes que escolho – o universo é um hospital, e somos pacientes e cuidadores o tempo todo –, muito mais do que pelas palavras facilmente carregadas pelo vento. Felizes atitudes em 2008!

Felipe Mello. Radialista, palestrante e diretor da ONG Canto Cidadão, fundada para produzir e democratizar informações sobre cidadania e direitos humanos.
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