Gestão da responsabilidade social: bondade ou interesse estratégico?

Por: Paulo Ivo
01 Novembro 2004 - 00h00

É melhor o desempenho econômico-financeiro de organizações compromissadas com a responsabilidade social, relativamente àquelas que não o são. Essa é uma das sinalizações do emergente mercado contando com empresas socialmente responsáveis, em que o investidor aporta suas aplicações a partir de uma filtragem tridimensional, analisando, sob o mesmo peso, as dimensões econômica, social e ambiental das organizações objeto dos seus interesses.
As empresas estão percebendo sua responsabilidade quanto à sua interação com as partes interessadas (stakeholders), notadamente em relação à comunidade onde estão inseridas. A ação social de empresas transcende a percepção tradicional e busca comprometer-se com objetivos e metas, integra-se aos demais sistemas de gestão existentes de forma pró-ativa, permite o envolvimento de cada colaborador e dá transparência aos projetos com o intuito de multiplicar as ações sociais, com o envolvimento de outras empresas, sem diminuir a importância do Estado nas questões fundamentais, tais como educação, saúde e segurança, buscando a regulamentação e a complementaridade.
Para regulamentar o interesse pela responsabilidade social, em 1997 foi criada a norma SA 8000, sob a coordenação da Social Accountability International (SAI), com sede em Nova Iorque. Modelada a partir de normas das famílias ISSO 9000 e ISO14000, a SA 8000 está indiretamente presente em SGIs (Sistemas de Gestão Integrados), mas com arcabouço de requisitos diferente daquele de suas fontes modeladoras e independente de outros sistemas de gestão. É um modelo internacionalmente reconhecido de como fazer a gestão com responsabilidade social, além de ser adotável por organizações de todos os portes.
Usualmente entendemos que a administração gerencial moderna de empresas, segundo critérios normativos internacionalmente aceitos, está associada à gestão da qualidade, notadamente por meio da utilização de padrões associados à qualidade (ISO 9000). Nos últimos anos, entretanto, tem havido uma tendência de se buscar a integração de vários sistemas, além da qualidade: segurança e saúde ocupacional (BS 8800, OHSAS 18001) e gestão ambiental (ISO 14001), sinal de uma visão mais holística de negócios que privilegia todas as partes interessadas com as quais tem uma interface e que, de alguma maneira, são impactadas pelas atividades de uma organização, inclusive a questão da sustentabilidade ambiental, na medida da importância da visão tríplice da dimensão social, econômica e ambiental.
A implantação da SA 8000 permite que os requisitos de responsabilidade social de uma empresa sejam bem definidos. Desenvolver, manter e executar políticas e procedimentos com o objetivo de gerenciar princípios, como saúde ocupacional e segurança no local de trabalho, por exemplo, são alguns quesitos que a empresa deve gerenciar.
Segundo Oded Grajew1, os diversos setores da sociedade estão redefinindo seus papéis com as empresas, adotando um comportamento socialmente responsável, juntamente com estados e sociedade civil, na busca da construção de um mundo melhor. Esse comportamento é caracterizado por uma coerência ética nas suas ações e relações com os diversos públicos com os quais interagem, contribuindo para o desenvolvimento contínuo das pessoas, das comunidades e de suas relações entre si e com o meio ambiente.
Entretanto, conforme alertado pela Revista Exame no lançamento do Guia de Boa Cidadania Corporativa2, a responsabilidade social não é algo que se possa medir com números e fórmulas matemáticas e seria inútil esperar pela existência de empresas perfeitas. É, todavia, possível que sejam estabelecidos critérios que permitam balizar o comportamento de responsabilidade social das empresas, focalizando os diversos públicos com os quais elas interagem: clientes internos, meio ambiente, fornecedores e subcontratados, consumidores, comunidade, governos e a sociedade em geral.
Um sistema de gestão de responsabilidade social como o que preconiza a norma SA 8000 promove melhorias no todo, abrangendo meio ambiente, saúde ocupacional e segurança, com a aderente condição de análises conforme convenções e recomendações da Organização Internacional do Trabalho (OIT), a Declaração Universal dos Direitos Humanos e a Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança.
É também de conhecimento geral que a distribuição de renda no mundo é bastante desequilibrada: 10% de pessoas ricas, 10% de pessoas de renda média e 80% de pessoas com baixa renda. Assim, um dos desafios presentes é criar condições para que esse enorme contingente de pessoas seja atraído e possa começar a participar da economia em todos os países. Segundo Schmidheiny3, “a gestão socialmente responsável abre caminhos para a atuação internacional das empresas, propiciando acesso a mercados e capitais” e “nenhum negócio pode, de fato, ser conduzido com sucesso numa sociedade que fracasse”. Essa mesma visão é compartilhada por Peliano4 na medida em que empresários brasileiros estão cada vez mais envolvidos em ações em benefício das comunidades onde atuam e que são impactadas pelas atividades de suas empresas.
A SA 8000 é uma alternativa internacional comprovada de implementação e prática da responsabilidade social e componente importante para consolidação da imagem corporativa, melhorando os resultados do balanço social, num quadro em que novos desenhos da relação capital/emprego passam a compor o negócio.

Novo ambiente de negócios

Ao mesmo tempo em que a tradicional forma de interação entre empresas e sociedade continua tendo sua importância e mérito, na medida em que “filantropia e assistência social não tratam apenas de prestar assistência à coletividade gratuitamente”, segundo Monello5, percebe-se claramente um movimento pró-ativo na direção da gestão da responsabilidade e do compromisso social. Tampouco, essa nova onda de realização de negócios se insere como um modismo, de caráter passageiro e fortuito. Nem significa o que se denomina “marketing social”, pois nesse contexto da gestão do compromisso social empresarial busca-se privilegiar a todas as partes interessadas envolvidas com cada empresa, e não somente a divulgação comercial dos produtos e/ou serviços realizados e/ou prestados por ela.
A sociedade organizada dá mostras de aprofundamento na sua forma de pensar um mercado socialmente responsável, atenta aos bons resultados sociais e ambientais, além do econômico. Emergem novas regras para uma “lei da procura” que só aceitará “consumir” – comprar, aplicar, apoiar – produtos e serviços resultantes de ações retratadoras de comportamento ético, comprometidos com a ordem social (valorização do corpo de colaboradores, respeito a compromissos de prazos e pagamentos, ética nas relações, entre outros) e com a ordem ambiental (como gerenciamento de resíduos, a preservação dos recursos naturais e a ampliação da vida útil dos produtos).
A responsabilidade social – o respeito aos valores éticos, às pessoas, à comunidade e ao meio ambiente – se tornou fundamental para a estratégia de empresas que querem ter sucesso na economia globalizada. A reputação, de fato, se transformou no principal patrimônio das empresas e a certificação segundo a SA 8000 é uma das formas de demonstração dessa nova estratégia de negócios.
Esses novos desenhos da relação capital/emprego mostram ao stakeholder – agente econômico – que uma parcela importante do seu capital é representada por variáveis intangíveis, como o são a reputação, a marca e a credibilidade, refletidas no concreto em forma de responsabilidade social6.
A gestão da responsabilidade social em moldes sistematizados concretiza o conceito de que o compromisso com a área social não é apenas um plus no fortalecimento da reputação da empresa, mas uma característica tão essencial quanto a preservação do meio ambiente ou a prevenção de acidentes internos.7

1 - GRAJEW, ODED, SEMINÁRIO DE FUNDAÇÃO DO INSTITUTO ETHOS, INSTITUTO ETHOS, JUNHO 1999
2 - GUIA DA BOA CIDADANIA CORPORATIVA, REVISTA EXAME, EDIÇÃO 728, ANO 34, NO. 24, 29 NOVEMBRO 2000, PÁG. 32
3 - SCHMIDHEINY, STEPHAN, PLENÁRIA DE ABERTURA: RESPONSABILIDADE SOCIAL E INSERÇÃO COMPETITIVA DAS EMPRESAS BRASILEIRAS NA ECONOMICA GLOBAL, IV CONFERÊNCIA DO INSTITUTO ETHOS, 4-7 JUNHO 2002, NOVOTEL CENTER NORTE, SÃO PAULO, SP
4 - PELIANO, ANNA MARIA T. MEDEIROS, IPEA – WWW.IPEA.GOV.BR/ASOCIAL, BONDADE OU INTERESSE, IV CONFERÊNCIA DO INSTITUTO ETHOS, 4-7 JUNHO 2002, NOVOTEL CENTER NORTE, SÃO PAULO, SP
5 - MONELLO, SÉRGIO ROBERTO, FILANTROPIA E GRATUIDADES, REVISTA FILANTROPIA – VOLUNTARIADO & TERCEIRO SETOR, EDIÇÃO 12, ANO III, MAIO/JUNHO 2004, P. 32
6 - IVO, PAULO S., O PAPEL ESTRATÉGICO DA CADEIA DE FORNECIMENTO, REVISTA BANAS QUALIDADE, ABRIL 2004, P.
7 - Ivo, Paulo S., Gestão Socialmente Responsável – SA8000, Carta Educação Comunitária - Ano IV - no. 21 - Agosto/Setembro 1999:3

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