Cultura da Doação só será possível com mudança social

A solidariedade é uma característica do povo brasileiro. Sempre que uma tragédia de grandes proporções acontece, a população se une para doar roupas, colchões, cestas básicas e o que mais for necessário para amenizar a dor das vítimas naquela catástrofe. De acordo com a mais recente pesquisa sobre Doação no Brasil, coordenada pelo IDIS (Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social), 84% das pessoas realizaram alguma doação em 2022, seja de dinheiro, bens ou tempo, na forma de trabalho voluntário.
À primeira vista, pode parecer que a arrecadação de recursos para as organizações sociais no País é uma questão resolvida. Mas basta avançar algumas páginas da pesquisa do IDIS para entender que a generosidade do brasileiro possui características peculiares: por mais que 84% da população tenha doado no ano passado, apenas 36% destinou dinheiro para ONGs e/ou projetos sociais e ambientais diretamente. Portanto, quase metade da estatística (ou 84% – 36% = 48%) é formada por gente que deu esmolas, pagou o dízimo, emprestou para parentes, fez trabalho voluntário ou mesmo doou alimentos e roupas após um desastre ambiental. 
Por aí se vê que a boa ação do povo brasileiro ainda está distante do que os especialistas chamam de Cultura da Doação. “Cultura é o conjunto de valores e comportamentos adotados, compartilhados por uma sociedade”, explica Andrea Wolfenbüttel, consultora associada ao IDIS e membro do Comitê Coordenador do MCD (Movimento por uma Cultura de Doação). “Para que a doação se encaixe nessa definição, seria preciso que as pessoas adotassem essa prática na sua rotina, a ponto de comentarem umas com as outras e até acharem estranho quem não contribui com uma ONG”, acrescenta. 
A simples ação de ajudar o outro mostra que somos solidários – algo importante, mas não suficiente. Mas por que o brasileiro não doa regularmente?
Uma das explicações está na própria condição econômica da população. O Brasil é um dos países mais desiguais do mundo. Nosso índice de Gini, que mede a disparidade entre os mais ricos e os mais pobres, é 48,9, em uma escala que vai de zero a cem. O rendimento domiciliar per capita foi de R$ 1.625, variando de R$ 814 no Maranhão a R$ 2.913 no Distrito Federal.
Outro desafio está na mentalidade das pessoas que mantêm segredo sobre suas boas ações. “Nos Estados Unidos, é comum que quando uma criança começa a receber uma mesada, ela já aprende que parte será destinada à poupança, parte irá para compras e o restante, para doação”, lembra Andrea. Soma-se ainda a desconfiança sobre as organizações, revelada na pesquisa do IDIS, quando apenas 31% das respostas concordaram com as afirmações: “As ONGs deixam claro o que fazem com os recursos que aplicam” e “A maior parte das ONGs é confiável”.

Derrubando mitos

Na lista da pouca maturidade do povo brasileiro, também existem os mitos, como o de achar que doação é coisa para gente rica. Se a classe C, que representa cerca de 100 milhões brasileiros, doasse R$ 30 por mês, de forma recorrente, essa parcela conseguiria doar R$ 45 mil para cada uma das 800 mil ONGs do País todos os anos. “A relação com o dinheiro ainda é uma coisa ainda mal resolvida na população, e isso envolve também a doação de dinheiro”, sentencia Andrea. 
Outro argumento a ser derrubado é o de que as soluções para os problemas socioambientais são de responsabilidade única do poder público. Mentira. O Terceiro Setor contribui muito, porque tem um alcance infinitamente maior para identificar, conceber e executar projetos junto às comunidades. Muitas iniciativas das ONGs não apenas são implementadas, como avaliadas e melhoradas a ponto de servir de modelo para o Estado replicar em outras regiões numa ação em massa, por exemplo. 
Por fim, pessoas fogem da doação por não enxergarem o quanto o trabalho de uma ONG pode estar beneficiando seu dia a dia. Esse comportamento se difere do ato de pagar o dízimo à igreja, pois, nessa situação, o doador vê a instituição religiosa como algo que ele usufrui. Para essa situação, Andrea costuma dizer: “Mesmo que a pessoa não saiba, sempre haverá uma ONG cuidando dela”. Deste modo, toda mulher deveria doar diante da luta de organizações pelos seus direitos. Habitantes de grandes cidades são atendidos na pauta de movimentos por mobilidade urbana. E todos os seres humanos deveriam considerar o trabalho de militantes em prol do meio ambiente.

Incentivo à Cultura

Com o objetivo de conscientizar a população do papel fundamental do Terceiro Setor, surgiu neste ano a Sociedade Viva – uma iniciativa que reúne diversas instituições como a ABCR (Associação Brasileira de Captadores de Recursos), a ABONG (Associação Brasileira das Organizações Não Governamentais), o GIFE (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas), a Plataforma MROSC (Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil), o Observatório do Terceiro Setor e o Movimento por uma Cultura de Doação. No site sociedadeviva.org.br, é possível baixar materiais de divulgação que ensinam, de forma didática, a importância das ONGs para o estado democrático de direito. 
O Movimento por uma Cultura de Doação é outra iniciativa que, há dez anos, atua para inspirar e mobilizar pessoas e organizações no propósito de enraizar a doação como parte da cultura brasileira. Joana Ribeiro Mortari, co-criadora do MCD e Diretora da Associação Acorde, acrescenta o quanto é fundamental um sistema que financie esse processo de mudança social. “A gente precisa falar sobre esse tema fora da bolha do setor social”, afirma. 
Após um profundo processo de escuta, o Movimento elencou cinco diretrizes para um Brasil mais doador: 1) Educar para a cultura de doação; 2) Promover narrativas engajadoras; 3) Criar ambiente favorável à doação; 4) Fortalecer as organizações da Sociedade Civil; 5) Fortalecer o ecossistema promotor da cultura de doação.
Sobre esse último item, Joana conta que, com o apoio da Fundação José Luiz Egydio Setúbal, o Movimento por uma Cultura de Doação está mapeando quem atua em cada uma das recomendações que acompanham as diretrizes, para que fique fácil enxergar potenciais parceiros e áreas que ainda precisam ser endereçadas. Além das diretrizes e do mapeamento, o MCD está construindo um processo de metas e monitoramento das diretrizes. “Para o ano que vem, teremos diretrizes, mapa de quem atua e qual área, e índices para acompanhar a evolução da cultura de doação do Brasil”, revela.
Para Joana, atualmente as organizações concentram esforços mobilizando recursos junto às empresas, deixando a captação com indivíduos em segundo plano. O problema é que o recurso de empresas tem, quase sempre, destino pré-determinado deixando pouco espaço para a OSC escolher como utilizá-lo. “Toda iniciativa de captação é importante. O que eu me dei conta, há 10 anos, é que quanto mais a sociedade civil for consciente sobre a importância de doar, maiores as chances das OSCs acessarem recursos não carimbados.”

Lição de Casa

João Paulo Vergueiro lembra que as organizações também precisam fazer a sua parte em prol da cultura da captação de recursos no País. Ou seja: não basta esperar que uma catástrofe sensibilize a população ou que haja uma mudança de mentalidade do brasileiro, num passe de mágica. “Há ONGs que têm vergonha de pedir”, afirma. Na sua avaliação, quando houver milhares de organizações pedindo para as pessoas, a todo momento, a sociedade vai se acostumar com essa prática e criar o hábito de doar.
Mas como fazer esse pedido? “É preciso que as organizações desenvolvam estratégias para abordar as pessoas, de formas diferentes, pensando naquilo que mais as sensibilizam. Há doações que são mais fáceis por meio de um telefonema. Tem gente que se sensibiliza com um email ou carta que recebe em casa. Outros, com uma abordagem nas ruas. Pode ser um evento ou assistindo à televisão. “O importante é encontrar esse caminho, investir para descobrir a sua própria técnica do pedido”, aponta Vergueiro.
Em seu livro Sustentabilidade Econômica das Organizações da Sociedade Civil (Ed. Senac. 2022), o ex-diretor da ABCR afirma que é bastante comum, no setor social brasileiro, um “certo pudor” por parte das organizações em investir dinheiro para gerar dinheiro, pois isso significaria reduzir os recursos disponíveis para a causa. “Tal pensamento, ainda que meritório, acaba prejudicando a própria instituição, que, ao negligenciar o desafio que é captar recursos para si, torna-se financeiramente inviável de se manter no futuro.”
Sites sem um botão para fazer doações, materiais impressos sem informação sobre como ajudar, participação em eventos sem a iniciativa de pedir um financiamento e até a ausência de uma placa à frente das suas sedes explicando como doar. Essas são falhas comuns que poderiam ser facilmente solucionadas pelas organizações, mas as mesmas se esquecem ou não as colocam como prioridade. “Até as grandes instituições cometem esses erros.”
No caso das ONGs pequenas, a situação é mais preocupante, pois suas lideranças se dedicam integralmente ao projeto social, sem tempo de pensar na independência financeira da organização. “É muito mais legal salvar vidas do que pedir dinheiro”, comenta Vergueiro. “Já ouvi muitos gestores dizendo que não concordam em pedir ‘esmola’ para financiar. Essa é uma mentalidade que precisa mudar com urgência.”
Como já definiu em seu livro, “a captação de recursos é uma arte: é entendida, desenvolvida e aprimorada, tornando-se cada vez mais refinada e perfeita”. E não há desculpas para quem se sente desconfortável em exercer essa tarefa, pois, felizmente, existe o profissional da Captação de Recursos. Desde 2021, a atividade consta no registro do Código Brasileiro de Ocupações e vem conquistando um espaço relevante no Terceiro Setor, pela sua habilidade em compreender e definir caminhos na busca por melhores resultados. 
Trata-se de uma comunidade pequena, talvez pela falta de mais cursos para formação nessa área ou pela ausência de incentivos capazes de atrair jovens talentos. “Exatamente por essas razões, os captadores brasileiros são muito bons, pois chegaram até essa profissão pela vocação de servir a uma causa”, finaliza Vergueiro. 
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A Rede Filantropia é uma plataforma de disseminação de conhecimento técnico para o Terceiro Setor, que busca profissionalizar a atuação das instituições por meio de treinamentos, publicações, palestras, debates, entre outras iniciativas.

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