Contrapontos à responsabilidade social

Por: Marcelo Linguitte
01 Novembro 2007 - 00h00
No final de 2007, estive em um encontro com empresas do setor de seguros da Venezuela. Era o congresso anual do setor, e o tema responsabilidade social empresarial (RSE) ganhou destaque na agenda do evento. Um dos palestrantes me chamou a atenção ao apresentar duras críticas a esse tema, o que achei muito interessante, já que dificilmente tenho ouvido ou lido comentários contra a RSE.

Realmente, creio ser muito importante a crítica, pois gera contrapontos e discussões importantes, o que termina fazendo com que o movimento de RSE siga avançando. Nenhuma unanimidade instiga melhorias, e acredito que a falta de críticas a esse tema seja um dos principais riscos a seu avanço. Nos jornais, nas revistas, nas reportagens televisivas, vemos principalmente exaltações às boas práticas sociais e ambientais das empresas – o que é certamente muito bom e deve continuar existindo, até para que se gere exemplaridade e mais empresas queiram seguir esse caminho.

Porém, não devemos esquecer que é quando nos criticam e desafiam que crescemos, seja como pessoas, como empresas, como nação. Nesse aspecto, creio que esteja faltando um olhar mais crítico da sociedade sobre a RSE, não apenas aplaudindo o que uma empresa faz de bom, mas também apontando práticas e políticas que estão absolutamente contra os princípios do desenvolvimento sustentável.

Modismo

Um dos aspectos que merecem atenção é o fato de ter se tornado politicamente correto dizer que as empresas devem incorporar o conceito de sustentabilidade e de responsabilidade social às suas estratégias de negócio. Nos eventos empresariais dos mais diversos tipos, nos relatórios anuais, nas comunicações com a imprensa, nos jornais internos para funcionários, enfim, em toda e qualquer situação em que a empresa está se comunicando é quase uma “heresia” não falar desses temas.

E, ainda que a empresa não tenha entendido muito bem o que isso significa, e não esteja tratando de maneira adequada os aspectos socioambientais em suas operações, o importante é posicionar a empresa como socialmente responsável. Como muitas empresas perceberam que a sustentabilidade vem se consolidando como um atributo de competitividade, algumas delas passaram a se revestir com uma capa de “empresa sustentável”, tentando vender uma imagem que é absolutamente incompatível com suas práticas reais.

São casos de oportunismo que colocam em risco as próprias empresas que cultivam tais práticas, criando um telhado de vidro sobre si mesmas. Se por um lado essa hipocrisia corporativa é prejudicial à própria RSE, pois tende a desacreditá-la, por outro também é um forte sinal de que o tema está cada vez mais presente nas agendas empresariais.

Movimento sindical

Outro tema importante diz respeito aos sindicatos. Em um projeto que desenvolvi recentemente em um país da América Central, ouvi de um diretor de uma empresa que o desenvolvimento de boas práticas com seu público interno evitaria que seus funcionários se interessassem por aderir a sindicatos. Em suma: se minha empresa é tão boa comigo, se me propicia tantas coisas, porque eu preciso de um sindicato que defenda meus interesses?

Sindicatos qualificados e com uma visão que inclua a sustentabilidade em sua agenda podem contribuir muito com o bem-estar do trabalhador, já que apresentam esse contraponto necessário à evolução das relações de trabalho. Assim, por mais que uma empresa esteja entre as “Melhores Empresas para se Trabalhar”, ela nunca irá substituir a ação sindical. Agora, para isso, é necessário que os sindicatos também se aparelhem para discussões que envolvam, por exemplo, os impactos ambientais das operações das empresas.

Se o tema RSE e sustentabilidade estão ocupando espaço nas empresas, é natural que os sindicatos se envolvam com esses aspectos, para poderem promover debates de níveis mais elevados. Algumas organizações, como o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), têm desenvolvido um trabalho interessante na incorporação da RSE na pauta sindical. Mas há ainda muito a ser feito.

Inclusão

A questão do acesso da base da pirâmide a bens de consumo é um outro aspecto da RSE que me parece necessitar de maior cuidado. Normalmente, o que se vê são empresas desenvolvendo estratégias interessantes – e altamente meritórias – para permitir que as classes sociais mais carentes tenham acesso a seus produtos e serviços. Um exemplo interessante disso são os espaços comunitários, desenvolvidos pela Procter & Gamble na Venezuela, que incluem lavanderia, cabeleireiro e quadra de esportes. A lavanderia, chamada de Arielmatic, permite a famílias de baixa renda lavar suas roupas, o que de outra maneira seria muito difícil, já que nem sempre elas contam com acesso permanente a serviços de água.

Esse caso é um exemplo de inclusão da base da pirâmide social a produtos de consumo, ampliando a participação da empresa no mercado local e beneficiando muitas pessoas. Contudo, um aspecto que falta nessa equação é o outro lado da moeda: a geração de renda para manter esse consumo. Afinal, para consumir, precisamos de dinheiro, e se as empresas em suas estratégias não tratam desse aspecto, com o tempo a equação não se mantém.

Na Colômbia, uma operadora de telefonia móvel teve a idéia de contratar pessoas de baixa renda e posicioná-las nas regiões centrais e periféricas de grandes cidades. Essas pessoas carregam aparelhos celulares e levam uma pequena plaqueta oferecendo aos cidadãos que passam por ali o uso do serviço celular ao custo de centavos de dólar. Essa estratégia permitiu ampliar muito os negócios da empresa, além de gerar dezenas de postos de trabalho.

Do mesmo modo que fazemos com uma planta, que necessita de cuidados, mas também de podas nos momentos apropriados, devemos fazer com a RSE. Se apenas elogiamos e fechamos os olhos às mudanças que são necessárias, estaremos contribuindo para o seu enfraquecimento. Apontar falhas e sugerir correções pode incomodar algumas vezes, mas é um custo pequeno se comparado ao risco de que a RSE se transforme em mais uma moda gerencial: que veio, provocou algumas mudanças, mas que depois passou. A autenticidade das práticas empresariais e o acompanhamento da sociedade irão garantir que a RSE produza as mudanças que dela se espera.

Como muitas empresas perceberam que a sustentabilidade vem se consolidando como um atributo de competitividade, algumas delas passaram a se revestir com uma capa de ‘empresa sustentável’, tentando vender uma imagem que é absolutamente incompatível com suas práticas reais

Marcelo Linguitte. Diretor-gerente da Terra Mater Empreendimentos Sustentáveis.
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