Cada um colhe o que planta

Por: Aron Belinky
01 Janeiro 2010 - 00h00

Das muitas lições que vão aparecendo conforme assentam a poeira e as emoções levantadas pela United Nations Climate

Change Conference (mais conhecida como COP15), uma das mais evidentes é a confirmação do ditado que intitula este artigo. Por exemplo, o caso do Sr. Lars Rasmussen, primeiro-ministro da Dinamarca, que protagonizou alguns dos mais deploráveis lances do espetacular fiasco em que terminou a conferência do clima em Copenhague, COP15.

Há ampla convicção de que um dos elementos centrais para tal insucesso foi a postura autoritária e autocentrada do responsável por presidir um evento dessa importância. Quem ignora as regras do jogo e os processos democráticos estabelecidos por uma comunidade não pode esperar que o mesmo grupo endosse seus atos e decisões. Quem cultiva acordos em conchavos obscuros não irá colher o respaldo dos que duramente lavram consensos no campo aberto das

Nações Unidas (ONU).

É nessa evidente morosidade e ineficácia dos processos da ONU que o presidente final da COP15 procurou justificar sua postura. Para salvar as aparências, preferiu montar um acordo rápido entre os atores principais a enfrentar o prenunciado vazio de conclusões em Copenhague. Afinal, era isso mesmo que poderia resultar dos dois longos anos de reuniões preparatórias, uma torturante coleção de conversas ocas entre negociadores sem real poder. A bem da verdade, lembre-se que Rasmussen até tentou adiar ou esvaziar a COP15, avisando que dela não se podia esperar muito, dada a ineficácia do processo preparatório.

Foi impedido pela pressão da ciência e da sociedade civil, alertas para o fato de que o clima não espera e o tempo não para: TicTacTicTac. Melhor cair logo na realidade do que permanecer iludido. Apresentam-se aqui dois outros exemplos de plantio e colheita: o dos países-membro da ONU e o da sociedade civil planetária. No que tange aos primeiros, o que plantaram foi um processo ineficaz, os tais dois anos de preparo, que pouco ou nada prepararam. Burocratas e diplomatas agiram como lavradores irresponsáveis, fingindo que aravam quando apenas arranhavam a superfície dura de um enorme desafio. Pior fizeram os chefes de Estado e governo, seus pretensos líderes, que fingiam acreditar enquanto seus comandados fingiam que avançavam. Pior ainda se de fato acreditavam na farsa, ou se nem sequer prestavam atenção, surdos aos gritos da ciência e das precoces vítimas do clima, como se tudo ocorresse com a quietude das geleiras que derretem. Colheram retumbante fracasso.

Desmoralização pública gravada para a posteridade pelos milhões de registros e testemunhos dos dias da COP15: das duas semanas em que diplomatas irresponsáveis tentaram consertar dois anos de incúria. Dos dois dias em que políticos acuados tentaram, madrugada adentro, resolver problemas que pouco antes desprezaram. Das últimas horas, em que os pseudolíderes simplesmente fugiram da cena do crime, do plenário que ridiculamente varou a noite para, pelo menos, arrumar a bagunça.

Mas alguém teve boa colheita: as centenas de organizações da sociedade civil, de todos os matizes: ambientais, sociais, religiosos, sindicais, empresariais, profissionais, acadêmicos. Esse diversificado e meio caótico grupo descobriu-se unido como nunca. Articulado como jamais se viu, superando diferenças individuais em prol de um objetivo comum. O mundo não será mais o mesmo após dezembro de 2009. E a razão para isso é o alerta que, graças a milhões de vozes, fez o tema das mudanças climáticas ser finalmente alçado ao status de emergência global, trazendo consigo as discussões sobre justiça social (agora climática) e o inexistente sistema de governança global.

Mesmo subestimada pelo noticiário, todos sentem ser essa a força por trás dos fatos que chegam à superfície da grande imprensa. Lembrando Caetano Veloso, é a gente estrela, que se espanta à própria explosão. E não vai parar por aqui: está apenas no começo.
Concluindo, e fazendo a devida homenagem aos cidadãos e cidadãs do mundo, lembro que houve algo de belo no reino da

Dinamarca, como as 100 mil pessoas pacíficas, mas não passivas, marchando pelas ruas geladas no dia 12 de dezembro. É exceção que confirma a regra do plantio e colheita: mesmo plantando desorganização, desrespeito e brutalidade, os organizadores da COP15 não colheram a previsível reação violenta. Grata surpresa! Muitas sementes foram plantadas em

Copenhague e no mundo todo. Cumpre agora a todos nós zelarmos por elas com carinho e cuidado, em nome do merecido futuro que colheremos.

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