Baile Do Desespero e Do Improviso

Por: Felipe Mello
22 Fevereiro 2018 - 00h00

Quando eu começo uma visita hospitalar como palhaço, experimento um puro e sincero estado de desespero. Mergulharei nele em breve. Antes disso, vale lembrar que há 16 anos eu faço isso, com certa frequência e, felizmente, com uma crescente capacidade de compreensão do que pode acontecer nos corredores, quartos, recepções, UTIs e outras áreas do hospital, por meio das interações do palhaço com as pessoas – profissionais, pacientes e acompanhantes.

No início, havia a vontade de levar um repertório vasto, uma caixa cheia de ferramentas, um arsenal de possibilidades. Tudo para distrair a plateia. Afinal, imagina o senso comum, ao artista cabe a função de provocar a catarse, o desligamento do mundo real e o mergulho no imaginário. Não discordo por completo disso, pois existem momentos em que a realidade é triste, feia e merece nosso protesto. Mas, isso não me interessa agora. O papo é outro.

Pouco a pouco, busquei mais leveza nas idas ao hospital. Tirei a maquiagem e simplifiquei o figurino. Cada vez mais, basta-me o nariz vermelho como acessório e o desespero como causa. Sim, o desespero. A decisão de não mais esperar, mas, sim, entregar-me ao momento. Pode-se diminuir o valor da provocação de palavras, mas para mim foi e ainda é uma chave. Eu não espero nada quando entro em um quarto de hospital. Não espero ser a causa do riso. Não espero curar o paciente. Não espero. Em respeito a quem está lá, não entro antes de entrar. Não me preocupo. Apenas me ocupo de chegar disposto e sincero ao encontro.

Aqui reside, a meu ver, o tesouro do improviso. A honestidade de estar presente onde quer que decido estar. Nem antes e nem depois: presente. E, para isso, preciso esvaziar para fundar um novo encontro. Prontidão: estar disponível, interessado, ou ainda, estar inteiro no que decido fazer, como já sugeriu um Fernando famoso e lusitano.

Calma, a proposta não é jogar fora tudo o que já juntamos nas mochilas dos conhecimentos, estratégias, habilidades e que tais. Não. Seria um desperdício. Vou a Píndaro, que há milhares de anos apontou uma distinção que até hoje parece confusa. A sabedoria, segundo ele, seria o conhecimento temperado pela Ética. Desço da nuvem das ideias e chovo uma história acontecida.

Poderia ir longe no tempo, vasculhar no baú de milhares de visitas em centenas de hospitais. Mas prefiro compartilhar algo que vivi há poucas semanas. Aconteceu em um hospital público, na cidade de São Paulo, em uma UTI que cuida de pessoas com queimaduras severas. Ao me aproximar do leito de uma moça que estava em isolamento, percebi que seus olhos estavam fechados. Fiquei um instante parado, tempo suficiente para que ela abrisse os olhos e franzisse a testa. São muitos os casos em que pacientes com queimaduras sentem-se desconfortáveis por conta de sua aparência. Mas, ao longo do tempo, percebi que o desconforto poderia quase desaparecer se ficasse claro que a visita não era para a queimadura, mas para a pessoa.

Depois de olhares desconfiados, apresentei-me e perguntei o nome dela. Ela me disse. Seu sobrenome era uma árvore frutífera. E assim começou o papo. Ela, desconfiada por eu não buscar a graça a qualquer custo, entregou-se pouco a pouco ao papo simples, sem tensão, descontraído e despretensioso. Mais um pouco e ela já estava dando dicas para meus cabelos longos e rebeldes. Ensinou-me a cantar o refrão de uma música bem popular. Tantos outros pequenos tópicos surgirão. A potência indizível do miúdo da vida recheou os minutos. Ao final do encontro, suspirei, agradeci o papo e me despedi. Ela também me agradeceu. E, nos segundos silenciosos que se seguiram ao protocolo, o tesouro invisível dessa sutil arte dos encontros improvisados e desesperados se revelou: olhos marejados, cabeças meneando levemente, sorriso no canto da boca. Ela sabia que eu estava lá de verdade. Ela percebeu que eu não tinha levado nada pronto, além da vontade de visitar seu mundo, respeitosamente. A empatia de não se levar fórmulas repetidas para encontros diferentes. Ou páginas já escritas para histórias novas.

Não sei como traduzir a sensação em palavras. Não se trata de falsa modéstia. Está mais para incapacidade, mesmo. Mas, se eu tivesse que palpitar sobre o que mais me toca hoje em dia no que eu faço, eu arriscaria: organizar para simplificar e caprichar, tudo perfumado com Ética. Por organizar, entendo a decisão de criar as condições para que o encontro aconteça: preparação e concentração. Para simplificar, o abraço ao essencial e ao momento presente (parem o mundo que agora eu estou aqui!). E o capricho ético de entregar o melhor de si na dança, observando e cuidando gentilmente do lugar do outro, para que pernas, braços, sorrisos e almas se entrelacem por instantes e rodopiem como nunca ninguém rodopiou antes e não rodopiará nunca mais.

Valorizar o tesouro inédito de cada encontro, crendo que dentro da semente mora uma árvore: a isso quero dedicar a minha vida.

 

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