Assistência social “delivery”

Por: Marcio Zeppelini
01 Janeiro 2010 - 00h00

Fazer o bem sem olhar a quem – esta é uma máxima ouvida nos quatro cantos do planeta quando o assunto é assistência social. No entanto, caberia também a ela uma nova redação: fazer o bem, não importa onde. Projetos que atendem comunidades localizadas em áreas ermas, ou com pouco acesso a tratamentos médicos, custam mais devido à necessidade de se ter uma infraestrutura de transporte, manutenção dos equipamentos e trânsito pelos difíceis acessos. Ao patrocinar tais projetos, empresas ganham visibilidade em diferentes localidades do país e, além de beneficiar as iniciativas sociais, ainda ganham pontos para sua imagem.

Rio Guamar, comunidade quilombola da Ilha de Mocajuba, município de Bujaru, quatro horas de barco a leste de Belém. É possível que quase a totalidade dos leitores da Revista Filantropia jamais tenha ouvido falar desse lugar, mas ali vivem cerca de 40 famílias, quase todas abaixo da linha da pobreza e sem qualquer infraestrutura sanitária. A riqueza das paisagens e a exuberância de grandes árvores pertencentes à Amazônia Legal, como a imponente samambeira, escondem diversos povoados que não recebem água encanada, assistência à saúde, educação de qualidade, entre outras necessidades sociais.

Como em tantas outras áreas em que os três poderes governamentais desprezam e marginalizam o desenvolvimento humano, cabe ao Terceiro Setor amenizar toda a problemática social. Mas como atender a povoados nos quais não se chega nem de carro e que ficam a centenas de quilômetros dos grandes centros?

Há 47 anos, a Sociedade Bíblica do Brasil (SBB) resolveu descentralizar a sua atuação social e “entregar em domicílio” consultas médicas, odontológicas e psicológicas, além de levar consigo sua grande missão – a democratização da Bíblia Sagrada – e, de quebra, um pouco de alegria e carinho a pessoas carentes de tudo.

Com um barco em atuação na região de Belém, o projeto Luz da Amazônia percorre, em média, cinco comunidades por mês; realizou, em 2009, mais de 14 mil atendimentos dentro das próprias comunidades. “Sabemos que essas pessoas não têm capacidade de se deslocar por horas de barco pela selva a fim de tratar uma cárie ou saber o porquê de estarem com uma dor no abdômen. Então, levamos os profissionais até elas”. Explica Marcia Carneiro, gerente de Comunicação da entidade. “É quase que dizer que se Maomé não vai à montanha, a montanha vai a Maomé”, completa.

Acyr de Gerone Junior, pastor e secretário regional da SBB de Belém, relembra alegrias experimentadas nessas viagens de atendimento. “Após um tratamento de uma criança com toda a arcada dentária apodrecida, nós demos àquela menina a possibilidade de sorrir novamente”, comemora Gerone. “É comum atendermos picadas de cobras ou fazermos pequenas cirurgias a bordo e, com um laboratório equipado, diagnosticamos desde uma glicose alterada até uma gravidez inesperada”, completa.

O atendimento ainda é acrescido de palestras sobre câncer de mama, reeducação de higiene bucal, turismo comunitário e geração de renda, confeitadas de atividades lúdicas e culturais.

A exemplo do Luz da Amazônia, a SBB acaba de inaugurar o Luz do Nordeste – agora sobre quatro rodas, não em um barco, mas em um caminhão munido de laboratório e consultórios –, no qual faz o mesmo papel nos povoados distantes do sertão nordestino. No outro extremo do país, um ônibus faz o Luz do Sul, há cerca de dois anos, seguindo o mesmo princípio dos primeiros.

Como a SBB, diversas organizações sociais caminham quilômetros para levar sua assistência a povoados sem oportunidades latentes. É o caso do

Médicos sem Fronteiras, Projeto Vagalume, Dentistas do Bem, entre outras que levam saúde, educação, cultura, lazer e, sobretudo, conforto a essas famílias. E para que a totalidade de nossa população seja atendida pelas organizações do Terceiro Setor, implantar unidades móveis de seus programas sociais é uma saída viável e bem menos custosa do que construir diversas unidades fixas.

Outro exemplo de iniciativa é o Centro de Integração Educação e Saúde (projeto Cies), que proporciona acesso a exames médicos como endoscopia, mamografia e ultrassonografia em um caminhão adaptado com aparelhos de diagnóstico de última geração. “Começamos nas cidades do Estado de São

Paulo, agora estamos espalhando para outros Estados”, conta o Dr. Roberto Kikawa, gastroenterologista e endoscopista e um dos idealizadores do projeto. “Fazemos a ponte entre a Unidade Básica de Saúde e o hospital. Às vezes, o paciente consegue uma consulta, mas não tem como fazer os exames. Não viemos para competir, mas complementar. Na carreta, temos centro cirúrgico, mamografia digital, aparelhos de urologia e espaço para cirurgias de catarata”, complementa.

Além da mobilidade, que por si só torna a atividade mais prática e atinge distâncias antes difíceis de serem alcançadas, programas móveis de atividades dão visibilidade e credibilidade às organizações sociais. “Nossa chegada em comunidades distantes é como um dia de festa. A ansiedade toma conta das famílias e se imprime no rosto das crianças algumas semanas antes. No dia, até vestem a melhor roupa para nos receber, e isso é muito gratificante”, conta Carneiro.

Por estarem nas ruas – ou nos rios, nesse caso –, projetos como esse podem ganhar reforço especial de patrocinadores que queiram estampar sua logomarcas nas laterais dos veículos. Agora, com a dica em mãos, é colocar o pé na estrada. Ou, em certos casos, na água!

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