Advocacy: o lobby do bem

Por: Marcio Zeppelini
01 Setembro 2007 - 00h00
Há lobbies que vêm para o bem. É comum ouvirmos essa frase escrita de modo diferente, mas o sentido é o mesmo. Assim são as ações de pessoas ou grupos, empresas ou organizações sociais que se engajam por uma causa. O objetivo é lutar para a resolução de um problema ou pela defesa dos direitos de uma entidade ou de um grupo.

O termo advocacy, expressão inglesa que ainda não ganhou tradução literal para o português, se generalizou ao longo do tempo em função do acelerado crescimento do Terceiro Setor em todo o mundo. O lobby – ou o advocacy – é a utilização do poder e do status para se comunicar melhor e conquistar os objetivos pretendidos. Apesar de a palavra lobby ter sido usurpada por nossos malfadados governantes, o significado real dela é tão nobre quanto o objetivo do Terceiro Setor.

Advocacy é, basicamente, um lobby realizado entre setores (ou personagens) influentes na sociedade. É na realização de processos de comunicação, reuniões entre os interessados e os pedidos entre essas influências que se dá o verdadeiro advocacy, que pode ter várias vertentes, como social, ambiental ou cultural.

Na prática

Um exemplo bastante fácil de entender: imagine uma comunidade cortada por uma rodovia, onde os moradores são obrigados a atravessar de um lado para outro de forma precária, por falta de uma passarela. A mesma comunidade tem como vizinhos uma fábrica ou qualquer outra empresa privada.

Nessa comunidade existe uma ONG que representa os moradores do bairro e que sempre está pronta para tentar resolver qualquer tipo de questão. Por ser mais influente do que a comunidade avulsa, a entidade pressiona o poder público para a construção de uma passarela. Paralelamente, a ONG – por ser mais maleável e influente do que os órgãos governamentais – pode procurar o dono da empresa vizinha e pedir o financiamento da obra. E, sendo a representante-líder da comunidade, também pode realizar uma campanha para que as pessoas utilizem a passarela. Tudo isso é lobby, tudo isso é advocacy.

Outro exemplo que costumo usar para explicar o funcionamento do advocacy é a existência de um projeto ambiental que reflita diretamente em uma comunidade de pescadores. A ONG que representa (ou que deseja representar) esses pescadores pode formar uma comissão permanente de contato com os órgãos públicos para que haja entendimento entre as partes.

Aí é que entra a relação do advocacy com o setor de comunicação da ONG: o objetivo dessa ação será o de facilitar o diálogo e promover campanhas de conscientização para ambos os lados, mostrando que o projeto ambiental é bom para os pescadores, e, ao mesmo tempo, obter alterações de algumas questões do projeto, a fim de mostrar que ali vivem famílias que dependem da pesca.

Em menor grau também é possível uma pessoa ou um grupo se engajar na defesa de uma causa, fazendo seu lobby particular, escrevendo cartas aos jornais, contatando políticos, organizando reuniões comunitárias, participando de protestos públicos, ou se engajando em qualquer outro meio de ação que promova mudanças sociais e nas políticas públicas.

Primeiros passos

O advocacy tem vários graus de desenvolvimento no mundo. Nos países ricos, como os Estados Unidos, é um valor moral e cultural, ensinado nas escolas. O relacionamento entre comunidade e ONGs é bem amarrado e surte resultados bem-sucedidos. Quando tratado com seriedade e sem interesses ilícitos, o tema se desenvolve sem tropeços e todos saem ganhando.

Aqui no Brasil, ainda estamos a anos-luz dessa realidade, apesar da difusão de idéias acerca do Terceiro Setor ter se desenvolvido muito nas últimas décadas. Grande parte das ações provém de empresas privadas e de algumas públicas, e são desenvolvidas institucionalmente ou em parceria. Entre as ONGs, essa atuação ainda carece de articulações mais bem-feitas, que só podem ser construídas por meio da difusão de informações sobre o advocacy.

Para se ter uma idéia do tamanho dessa rede social, o Brasil tem mais de 350 mil organizações sociais (número estimado). Com esse tamanho, é improvável que o advocacy, em um país de dimensões continentais como o nosso, se desenvolva da maneira como queremos sem que haja comunicação objetiva e focada nos pontos negativos a serem combatidos.

O processo de comunicação entre comunidade, ONG e poder público – e aí soma-se o Ministério Público – ainda é muito frágil, com a exceção das grandes entidades, cujos orçamento e poder de mobilização são suficientes para completar o ciclo. Melhorar o atual cenário do advocacy no Brasil é um trabalho árduo, que demandará a participação de todos. Ainda há um longo caminho a percorrer.

Oportunidades

Por ser um processo flexível, o advocacy também pode ser praticado pelas empresas privadas. Sem esperar a mobilização das entidades, muitas delas costumam, por meio de suas próprias fundações ou institutos, participar de ações diretamente com o público, seja por meio de parcerias com o governo ou não. Obviamente, desde que esse lobby não reflita em interesses comerciais para a própria empresa.

O Terceiro Setor pode ainda praticar advocacy quando seus interesses dependem apenas do Estado. É o caso da atuação na esfera governamental para a promulgação de uma lei de incentivo à cultura, ao esporte, ou uma lei que beneficie os objetivos sociais que ela representa ou almeja. As ONGs – por serem representações de comunidades – ganham enorme força na realização do lobby quando pressionam políticos a votar por seus interesses.

O Brasil está deixando essa oportunidade passar. Se todos se conscientizassem da importância do advocacy – ou do lobby, como preferir – desde que feito com seriedade, honestidade, sensatez e, principalmente, que objetive o bem comum (e alheio), o mundo todo se beneficiaria de políticas criadas com mais democracia e bom senso. Todos ganhariam, sem exceção.
Marcio Zeppelini. Consultor em comunicação para o Terceiro Setor, editor da Revista Filantropia, produtor editorial pela Universidade Anhembi Morumbi e diretor executivo da Zeppelini Editorial & Comunicação.
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