A responsabilidade social do estadista com o futuro

Por: Dilnei Lorenzi
01 Janeiro 2009 - 00h00

É certo que a sociedade contemporânea passa por transformações profundas no que diz respeito à participação da comunidade civil nas decisões governamentais. As atividades vinculadas ao chamado Terceiro Setor se desenvolvem de maneira marcante nas sociedades bem estruturadas, do ponto de vista político, atuando na base das preocupações de seus governos: educação, saúde, assistência social, proteção ao meio ambiente, entre outros. Essas organizações têm conseguido resultados eficientes, com baixo custo e atendimento direto aos problemas localizados.

No Brasil, ainda não percebemos (ou não conseguimos entender) os aspectos frutíferos que essas instituições que constituem o Terceiro Setor podem trazer para a sociedade. A idéia de responsabilidade social, hoje divulgada como marketing pelas grandes empresas, já era praticada há muito tempo em nosso meio. A Igreja foi a primeira a desenvolver atividades com caráter beneficente nas áreas da educação, assistência social e saúde. A dimensão filantrópica contribui decisivamente para a consolidação do ambiente social que existe hoje, pois a limitada presença do Estado fez surgir um movimento que suprisse as carências latentes da população com forças próprias.

É fato que muito antes que o Estado se preocupasse com sua presença no atendimento à população, várias entidades já contribuíam significativamente para a formação do bem-estar social – tanto que o próprio Estado reconheceu o papel de tais instituições. Sabe-se que a atuação estatal é ineficiente, dadas as condições precárias em que se encontram as áreas de sua exclusiva responsabilidade. Isso não possibilita o desenvolvimento integral dos cidadãos e o funcionamento da sociedade como um todo dinâmico e interdependente, inserido em um processo histórico, que procura deliberadamente criar as condições necessárias para o desabrochar pleno das potencialidades da natureza humana.

No entanto, parece que os atuais responsáveis pela condução do Estado resolveram esquecer, ou desconhecem, a história e o árduo caminho que trilham as instituições no Brasil. Querem degradar direitos adquiridos, afrontando a constituição com um desejo voraz de arrecadar tributos, pouco se importando com aqueles que contribuem de fato com a ampliação dos direitos mínimos que permitem a dignidade humana.

A trajetória que se observa nas mais diversificadas sociedades consiste em um apelo especial para atividades que valorizam a participação da sociedade civil organizada. Qual seria a verdadeira intenção dos responsáveis pelo governo atual com a cruzada contra as organizações sociais, visto que as decisões tomadas como política incidem de forma direta no futuro do país?

É importante lembrar a preocupação que o legislador e o estadista devem ter com o bem da comunidade. As teorias políticas antigas pouco dizem sobre o aspecto temporal que aqui interessa. Pode-se aprender algo nos louvores aos grandes legisladores, como Sólon e Licurgo, ou na censura a um estadista como Péricles. Sem dúvida, louva-se o legislador também pela durabilidade de sua criação, mas não por planejar previamente algo que só deve se tornar realidade para os pósteros e é inalcançável pelos contemporâneos.

A previsão do estadista consiste na sabedoria e moderação devotadas por ele ao presente: esse presente não se destina a um futuro de outra espécie, mas, na hipótese mais favorável, a um futuro que se mantenha igual a ele. A duração é um efeito secundário do bem atual, válido para sempre. A ação política possui um intervalo de tempo de ação e de responsabilidade maior do que aquele da ação privada, mas, na concepção pré-moderna, a sua ética não é nada mais do que uma ética do presente, embora aplicada a uma forma de vida de duração mais longa.

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