A Modernidade Sob a Ótica Da Convivência

Por: Keller Reis Figueiredo, Marco Aurélio Trindade
22 Fevereiro 2018 - 00h00

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Uma reflexão sobre a crise da subjetividade privada na sociedade contemporânea

A sociedade moderna trouxe a racionalidade e o cientificismo para a humanidade. Na virada do milênio, vivemos a crise da modernidade, a qual é incapaz de proporcionar o equilíbrio sustentável dos seres humanos, pois o mundo objetivo aceito pela ciência não dá conta de proporcionar respostas aos desafios subjetivos impostos pelo tempo atual. Faz-se necessária a adoção de um novo ethos, que construa um modelo de ação subjetiva na sociedade, no qual o homem esteja mais integrado com os desafios do planeta e com a comunidade em que atua.

A crise da subjetividade privada enquanto tal, sob a perspectiva citada, volta-se ao conceito de alienação sobre a modernização que avança na sociedade atual, na qual o homem é equivalente a uma coisa (objeto), não como um sujeito consciente de si, mas sua consciência está atrelada à necessidade de respostas da tecnologia, reprimindo a subjetividade existente na ação humana.

A consciência do ser humano não está atrelada ao conceito de consciência de si; a consciência humana atrela-se aos meios tecnicistas que alienam e faz existir uma ruptura do homem ethos. Também podemos assim entender que o conceito de modernização transfigura na crise em que o ser humano consciente não é mais dono de si, mas um objeto da ciência.

O caminho para a superação da crise está na revalorização do ser humano como um sujeito, que não está limitado aos parâmetros da racionalidade cientificista, pois eles devem entender que não é o poder cientificista que os domina; devem abrir a consciência para perceber e saber o quão estão sendo dominados.

Com o poder da técnica cientificista, o homem entende que a prosperidade é sinônimo de riqueza material, fama, poder e luxo. Conforme explica Marshall Berman no livro Tudo que é Sólido se Desmancha no Ar (Editora Schwarcz, 1986, p. 40):

O Fausto, de Goethe, diz a Mefistófeles que, sim, ele deseja todas essas coisas, mas não pelo que elas representam em si mesmas. Entendamo-nos bem. Não ponho eu mira na posse do que o mundo alcunha gozos. O que preciso e quero é atordoar-me. Quero a embriaguez de incomportáveis dores, a volúpia do ódio, o arroubamento das sumas aflições. Estou curado das sedes do saber; de ora em diante às dores todas escancaro est'alma. As sensações da espécie humana em peso, quero-as eu dentro de mim; seus bens, seus males mais atrozes, mais íntimos, se entranhem aqui onde à vontade a mente minha os abrace, os tateie; assim me torno eu próprio a humanidade; e se ela ao cabo perdida for, me perderei com ela.

Essas relações que o homem moderno tem com o mundo tecnológico traz dentro dele próprio a necessidade da embriaguez científica e materialista. Os seres humanos, cientistas poderosos de sua consciência, querem a todo custo a fama de desenvolver algo sobre o mundo. Nos dias atuais, eles aperfeiçoam as técnicas cientificistas inventadas e a cada dia reinventam as próprias ciências. Se por uma tentativa é benéfica, consideramos como ato decisivo do progresso precípuo da humanidade, e quando não passa de interesses próprios é uma promiscuidade humana.

Pegamos o exemplo do processo evolutivo da ciência nos séculos 20 e 21, como aparelhos mobile, WhatsApp e Facebook. Atualmente, a maioria das pessoas não consegue mais ficar um segundo sequer sem manuseá-los. A cada dia os cientistas desses meios criam algo; eles estão sempre reinventando tais mecanismos (físicos ou virtuais) para prender a atenção da humanidade. Então, eles vão criando para que os homens se integrem a esses meios. Por exemplo: o WhatsApp somente permitia o envio de recados; agora tem chamadas e status. É um processo bem simples e rápido, que chega à consciência da humanidade fazendo-os com que eles sejam submetidos a esses dispositivos sem perceberem. Quando menos esperam, eles já não conseguem se livrar desses meios. O poder do humano cientificista é alienante perante o outro alienado pelos meios tecnológicos.

Devemos entender que quem cria esses dispositivos são "geniais", mas quem se torna "massa de manobra" é um humano alienado. E, assim, esse movimento atual é "toxicotecnicológico", que vai reprimindo o próprio humano e impedindo-o de se libertar. O que seria esse ato "toxicotecnicológico"? É o poder da tecnologia na modernização sobre a humanidade, de maneira alienante, e fomentando a crise da subjetividade humana a cada dia que passa.

O processo é sutil, porém profundo, uma vez que altera o comportamento e as relações humanas. Através do meio de comunicação passamos a tratar o "outro" como uma coisa, que pode estar on-line ou off-line. A relação passa a ser superficial, capaz de mascarar a realidade, pois não vemos esse outro como ele realmente é, mas "vemos" algo com o qual interagimos para obter a nossa própria resposta. Quando nos sentimos desafiados pelas respostas do outro, não dialogamos, apenas desligamos os aparelhos tecnológicos. Somos incapazes de ouvir o contraditório, o diálogo torna-se pobre e, assim, passamos a conviver com o sentimento de nós e eles. As pessoas se dividem, aprisionadas em suas zonas de conforto; temem dar passos transformadores, que venham ampliar o campo de visão. A evolução da humanidade não ocorre apenas por um viés unilateral da verdade. A história vem nos mostrando que caminhamos de forma dialética, subjetividade versus objetividade, racionalismo versus empirismo, tese versus antítese. Precisamos do diálogo, do contraditório, da relação presencial, para nos aprofundarmos de forma subjetiva e objetiva com outras pessoas. A tecnologia não substitui a relação humana presencial; temos habilidades objetivas e subjetivas, racionais e irracionais, sensíveis e insensíveis que nos fazem ir além de uma máquina tecnológica.

Portanto, esse viés de modernidade pautada no conceito de cientificismo, faz o homem subjetivo ser reprimido enquanto processo de vir-a-ser humano; impera, desse modo, o homem objetivo. Ele está imerso na insensibilidade da relação conjunta com outro ser humano, que produz ao longo de sua história a crise da sua própria subjetividade privada.

 

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